9 de outubro de 2009

REFLEXPRESS - PARA BOI DORMIR


- Basta escurecer para o Aristides sair de casa e sumir! – vive dizendo a Dolores, quando reclama do marido na vizinhança.
Ela se queixa com toda a razão. O Tidão – apelido de infância do Aristides - não é mole! É uma figura enjoada.

Já é de manhã e lá vem ele chegando da boemia a puxar assunto com quem encontra pelo caminho. Dessa vez a vítima, sem querer, fui eu.

Estava a caminho do trabalho. Tinha saído um pouco mais cedo e resolvi comprar o jornal na banca do Afonso. Da esquina percebi os dois – o jornaleiro e o boêmio – entrosados em animada prosa. Tão atento estava o dono da banca a ouvir que sequer percebeu minha chegada. Como tinha tempo, deixei rolar e pude acompanhar o seguinte monólogo do Aristides:

- Obama, Obina, Osama, Ozônio e Ozóio. O que têm em comum estes entes? A existência e o tempo, óbvio! E o que eles têm de diferença? O ser. Cada um é, a seu modo, ululante!

O Obama é mulato – dizia com ar de seriedade – e representa o avanço contra o racismo em um país reconhecido como maior potência econômica do planeta. Apesar de ter sido educado com as mesmas benesses oferecidas exclusivamente aos compatriotas brancos e mais afortunados, ele se revestiu perfeitamente da pele de herdeiro e prosseguidor das seculares reivindicações da população negra norte-americana e, por ricochete, da massa despossuída do planeta. Só que uma de suas promessas mais importantes de campanha, aquela que versou sobre os 40 milhões de estadunidenses que vivem sem assistência médico hospitalar, foi brutalmente massacrada pelo conluio das companhias de seguros com o Parlamento norte-americano.

- Já furou aí – prosseguia o Tidão, com ar zombeteiro.
- E Obina? O baiano goleador é comparado, pelo flamenguista fanático – e agora pelo palmeirense fanático –, com o Eto’o. Perdeu o lugar para um imperador italiano. O tal de Adriano, vários anos de futebol europeu! Em Milão, o artilheiro renomado, que cansou de ficar longe da favela natal e voltou pro Brasil. Rico, famoso e ainda jovem. Boleiro com gás para badalar a noite inteira, treinar cedinho na Gávea e fazer os gols rubro-negros para enlouquecer a galera do urubu.
Com essas e outras, Obina baixou no Palestra Itália. Veio como salvação palmeirense para o lugar de um rapaz de nome sueco, um matogrossense que acabara de partir para balançar as redes no velho mundo. O moço que teria sido o remédio à desastrada perda de Kléber – chamaddo pela torcida alviverde de Gladiador – andou uns tempos apavorando as defesas ucranianas. Na Ucrânia, até eu, meu! Até eu!!!

Eu não entendia as conexões que o Aristides estabelecia, mas seguia ouvindo. Estava com tempo, queria que passasse a hora do busão lotado.

- E o Osama então – dizia ele, entusiasmado ao perceber a plateia aumentando – ah... o Bin Laden! Dizem que é o Bush filho “lado b”. Segundo fontes fidedignas, suas famílias são sócias nos negócios do petróleo. Dois meninos criados com toda educação e refinado conforto! Resumo: eles são dos melhores exemplos de intolerância, os mais perfeitos. Perto deles, fica fácil buscar em qualquer ditador sanguinário algum resquício de humanidade. Ambos protagonizaram momentos deploráveis da história da civilização. Dizem as más línguas que, quando enchia a cara de “birita”, o George W. virava “Ozóio” – depois do trocadilho infeliz, o Afonso percebeu que eu estava presente e, sem conseguir conter o riso, disse:

- Bom dia, o que é que manda?
- Eu queria o jornal, mas deixa quieto. Agora eu quero saber o final. Fala seu Tide, está faltando o Ozônio - indaguei relaxado.
- É... O Ozônio – emendou matreiro – o grande protetor da atmosfera planetária. O guardassol da terra. Está sendo atacado cruelmente pelos gases tóxicos e os peidos bovinos. Assim ele vai sucumbindo e, daqui a pouco, dez anos quem sabe, nunca mais o homem vai poder dizer que entrou numa fria – concluiu, tocou a aba do chapéu tirolês, e com um debochado bom dia, saiu a sorrir.

Olhei o relógio: - Putz! São dez para as nove! Já deu, estou atrasado.
Não comprei jornal algum. Saí dali pensando onde é que aquele fulano ia buscar ligações tão bizarras.

Claudio Zumckeller

Um comentário:

  1. Quando o grande Stanislaw Ponte Preta - heterônimo do também grande Sérgio Porto - escreveu o "Samba do Crioulo Doido" (brilhantemente interpretado pelos Demônios da Garoa), certamente ele conheceu o Tidão. Boêmio não-abstêmio (ao contrário do Paulo Vanzolini), Aristides é o alter-ego de Claudio Zumckeller. Sou a pessoa menos indicada para julgá-lo, nunca faria isso, JURO!, até porque também sou boêmio não-abstêmio, mas que o Aristides é o Claudião cagado e cuspido, aaahhh, é sim!
    Claudio, o nosso "Dom Quizote". Se precisar de um Sancho Pança, o barrigão eu já tenho!
    Rodrigo De Giuli

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