7 de outubro de 2009

REFLEXPRESS - O LONGO E TURVO CAMINHO



A passarinhada já cantava quando chego ao condomínio. Não sabia que horas eram ao certo. Talvez alvorada, talvez crepúsculo, não sabia. As mazelas do álcool faziam-se presentes. A única certeza era o estranho silêncio daquela manhã-noite e o cérebro pulsando repetidamente.

- Opa, moro aqui! – Acredito que o porteiro não me reconheceu na penumbra.

O portão se abriu. Seu zelador apertava os olhos com as mãos e enxugava as lágrimas de sono. Pelo menos, acreditei que as fossem.


Crédito: barnaulsky-zeek

O corredor é largo até o elevador. As luzes no alto da parede, milimetricamente dispostas, davam aparência de um infinito vórtice. Andaria ali para todo o sempre.
Um soluço. Aperto o botão do elevador.

A espera é longa. A escadaria seria uma opção se meus pés me obedecessem. Mas cada passo parecia uma luta interna. A mente, quando turva, torna muito difícil o ato: esquerda, direita, esquerda, direita. Sempre surge o “diagonal”, e você acaba aos beijos com o assoalho.
Deve ser algum filho da puta segurando esse elevador. Não era. Havia apenas uma simpática senhorinha, de cabelos “roxos’ e roupa azul claro. Seu perfume era forte.

- Olá meu querido!
- Opa! – Falarei o menos possível. Talvez não perceba minha embriaguez e não fique constrangida. - Faz um frio hoje não? – Não consegui me segurar, sua simpática figura inflava a cabine.
- Ô se faz! Mas a culpa é do síndico - vociferou contrastando sua imagem - Obrigou o zelador a colocar ar condicionado nos elevadores, halls e corredores.

- Nós temos um zelador também?

- Por onde anda sua cabeça, menino? Faz sete anos que ele está entre nós. Pedi tanto para que ele não aceitasse colocar esse ar frio no nosso condomínio...

- Porque ele não ouviu a senhora?

- Oxalá ele ouvisse alguém. Não digo que é um mau zelador, é bom. O melhor que já tivemos. Fez o possível pela maioria de nós, mas pela minoria, que consegue pagar as contas em dia e se acha dona do prédio, fez muito pouco. Então, fazem uma mídia negativa violenta para ele.

Ficou difícil raciocinar agora. Ela falou muito. E também, estamos passando pelo 35° andar, pelo que eu saiba o prédio só tem nove. É pequenino. Deve ser algum defeito da parte eletrônica.

- Mas, e você? Gosta do zelador? – Tinha me esquecido que a velha já me dera a resposta.

- Gosto e não gosto. O prédio está bem gerenciado, nunca prosperou tanto! – A provável septuagenária abaixou a cabeça, cerrou forçosamente as pálpebras, e em tom choroso arremeteu – Pena que no meu apartamento, a água ainda chega com pouco barro. As paredes estão caindo aos pedaços. A pintura já inexiste. E os podres, dos chiques apartamentos em cima, caem aos montes em meu quarto.

Bateu-me um imenso remorso. Como se a culpa fosse minha. Todos estes anos em que moro aqui nunca prestei a devida atenção ao fato. Mas, realmente, minha culpa não é. Divido esse fardo entre o zelador e o sindico. Sindico?

- E o sindico!? Onde ele está uma hora dessas? – O cérebro pulsava cada vez mais forte.

- Ah... Meu filho. Ninguém sabe.

- Como assim?

- Ninguém sabe ninguém viu. Parece fantasma. Não conhecemos rosto, não conhecemos cheiro, não conhecemos nome. Ninguém nunca foi atrás dele. Mas ele manda e desmanda. Disso temos certeza. Acredito que seja algo maior. Alguma organização de nome: “Síndicos que Mandam nos Condomínios do Mundo”. E não devem ser muitos, pois nunca o viram.

- Parece Deus! – A brincadeira não caiu bem.

- Para com isso, menino! Isso é conversa séria. Tem alguém aí fora que dita às regras e os zeladores acatam como se pudessem perder a vida, com a negação. Mas tenho fé!

- Fé em que?

- Fé, não. Certeza! Tudo isso ha de mudar. O mundo gira rápido e as coisas estão mudando.

- Coisas? Que coisas? Seja específica, velha! – O papo me enlouquecera. Era muita informação para minha mente mutilada pelo uísque.

- Você é muito novo. Não teve a mesma vivência e não tem os mesmos olhos que tenho. A humanidade está caminhando em passos largos.

A porta se abriu. Andar número 2010. A simpática senhorinha de cabelos roxos entrou no segundo apartamento, à direita. No instante em que abriu a porta, meus olhos foram tomados pela forte luz branca. Apaguei.

Abro os olhos, o porteiro está a estapear minha face. Estou jogado por entre degraus. A baba escorria pelo canto da boca.

- O que aconteceu? – Pergunto perdido e tonto, para o porteiro.

- Não sei... Só me lembro de você ter gritado no bloco oposto ao seu:
"- Ao inferno este elevador! Vou pela lenta e certa escadaria!"

Maldita “diagonal”.

Felipe Payão

8 comentários:

  1. Que viagem... Parece eu quando tomo umas e outras! Acho que já tive 1 sonho assim...
    Cynthia-RJ

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  2. Isso mesmo Cynthia! O "sonho alcoolizado" é uma viagem!
    Volte sempre.

    Beijos,
    Felipe Payão

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  3. , adoro o jeito como você escreve .. parece mais do que crônicas....


    ;D

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  4. Obrigado Renata!
    Volte sempre!

    Beijos,
    Felipe Payão

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  5. Hic, hic, hic...
    Já passei por isso. Quem nunca bebeu até que cair que atire a primeira tampa de garrafa!
    Rodrigo De Giuli

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  6. Tem um "que" a mais...
    E estou sóbrio, JURO!
    Rodrigo

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  7. kra, q viagem! depois dso vou paarr de bbr...

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