23 de outubro de 2009

REFLEXPRESS - NÃO CONSIGO ESCREVER




"Ouvi uma piada certa vez.
Um homem vai ao médico, dizendo estar deprimido.
A vida parece dura e cruel. Ele diz se sentir sozinho nesse mundo ameaçador.
O médico responde:
- O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade. Vá assisti-lo. Isso deve alegrá-lo.

O homem explode em lágrimas:
-Mas doutor - ele disse - Eu sou Pagliacci.

Boa piada.
Todos riem.
Rufam os tambores.
Fecham-se as cortinas..."


crédito: swampy

Não consigo escrever. Estou travado. Não consigo escrever.
Desligo a televisão. O jogo está ruim e meu time não coopera.
O que faço? Está tarde, tudo está fechado. Estou sem livros.
Arrisco uma leitura no computador. Um livro online.
Leio um parágrafo e meus olhos reclamam. Já sinto um peso próximo de um óculos em meu rosto.
Merda, não consigo escrever. Sempre foi tão fácil... O que é isso, companheiro?

A casa está vazia. Caminho até a sala em busca de um trago. As duas garrafas estão vazias. Faço força, “torço” a garrafa como se uma gota acabasse por me satisfazer.
Acendo um cigarro, o último (do maço).
O lápis desliza no papel, desenha círculos, linhas, pirâmides e formas abstratas.
Palavra? Nenhuma.

Resolvo espairecer: deixa pra lá!
Graças a deus inventaram o MP3. Agora posso sair durante a madrugada, caminhar por entre as ruas, e ouvir um bom e velho rock´n roll. Eu e minha solitude.
Batem os Sinos do Inferno e a guitarra vagarosamente começa a dançar em meu ouvido.

Preciso escrever. Se não, o que será daqui pra frente?
Glória. Tem um boteco aberto logo à frente. Ou pelo menos parece. As luzes estão acesas e tem um velho senhor – extremamente bêbado – escorado na porta.

- Tem uma moeda? Preciso beber mais. – Seu rosto estava inchado, o nariz avermelhado, e a mão trêmula esperando a esmola.
- Ô meu querido, porque não vai para sua casa?
- Pra quê? Ficar sentado sozinho?
- E a sua mulher?
- Sou péssimo em relacionamentos. – Soltou um sorriso envergonhado.
- E eu não consigo escrever.
- Fui poeta. Não sou mais. Escrevia para minha mulher. Agora as rosas de casa já murcharam.
- Toma. – Não consegui responder mais nada, entreguei uma nota de cinco reais e disse:
- Boa noite, poeta. Escreva sobre a vida.
Ele me respondeu, curto e grosso, sem dó, nem piedade:
- Escreva sobre o amor. Desafio você.
Virou as costas e saiu cantarolando Raul.

Consegui escrever. Acho que foi a aura do boteco. A branquinha no copo, o dono limpando o chão, a velha televisão desligada, os salgados rotos no balcão, e o cão sarnento dormindo na porta, tudo isso me deu coragem pra escrever no guardanapo:

“Eu só queria te dizer, eu sou aquele que devia tomar conta de tudo. Eu sou aquele que devia deixar tudo ok para todos. Mas não funcionou assim. E eu deixei. Eu deixei você. Você não fez nada de errado. Eu tentei fingir que você não existia. Mas eu não posso.”

Lixo. Não consigo escrever sobre amor. Não sei por que, mas já ouvi isso em algum filme. Ouvi sim, tenho certeza.
Merda. Não consigo escrever. Onde será que foi o poeta? Deveria ter conversado mais com ele. Devia ter esperado mais ao seu lado.

Uma viatura da polícia corta a rua em alta velocidade. O giroflex berra.
Coloco minha cabeça para fora do bar. É a curiosidade.
A viatura para a poucos metros dali. Os homens de farda descem, sem pressa, o semblante sério reflete algo que já estão acostumados. Tem um corpo inanimado no local.

O poeta estava morto. Um tiro na nuca, outra na parte de trás da cabeça. O poeta morreu sem saber, morreu sem sentir, morreu sem ver. Por um lado foi bom. O bom homem - até onde eu sei - não sofreu.

- Foi assalto, senhor? – Perguntei com medo de represália.
- Não sabemos. Recebemos uma ligação anônima de uma mulher. O que faz aqui a essa hora da noite?
- Eu não estou conseguindo escrever. Preciso encontrar outro poeta.

Felipe Payão

3 comentários:

  1. Vamos todos encontrar nosso poeta imaginário e buscar a iluminação!
    Força Felipão, você vai achar outro poeta antes dele ser assassinado!

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