19 de outubro de 2009

REALPOLITIK - A ILUSÃO DOS NÚMEROS


O jornalismo, em geral, é baseado em números (pesquisas) ou narrativas. Para o senso comum, os números são inquestionáveis. Mas, eles não representam uma verdade absoluta; são manipuláveis, e apenas representam um recorte do contexto. Uma visão de mundo.

O conjunto de ideias, crenças e valores, filosóficos, científicos ou religiosos formam paradigmas, visões de mundo. Um determinado grupo social entende a realidade através de um processo de percepção, que coletiviza a impressão do fato, ou seja, cada grupo só percebe o que conjuga com o padrão já concebido.

Esse processo de percepção explica como o mesmo fenômeno pode ser entendido de diversas maneiras. Em 1948, na cidade de Aporá, Minas Gerais, um eclipse total do sol ( fenômeno que ainda não havia sido presenciado pelos munícipes de Aporá ) provocou pânico geral; as pessoas acreditaram que era o fim do mundo, os camponeses, imediatamente, pararam de trabalhar, lampiões e candeias foram acesos, e, durante todo o dia o assunto não foi outro.

A aproximadamente 150 quilômetros dali, na cidade de Bocaiuva, o mesmo fenômeno foi recebido de forma totalmente diferente. Devido a sua localização, que privilegiava a observação do eclipse, Bocaiuva atraiu astrônomos e pesquisadores de todo o planeta, que em posse dos equipamentos mais modernos da época se entusiasmaram com o raríssimo evento. As duas cidades, apesar da proximidade geográfica, perceberam de modo radicalmente diferente o mesmo acontecimento. Nós entendemos o que nos convém entender, tudo que desafia o nosso modelo é rapidamente repudiado por nós mesmos.

Pesquisas Suspeitas
Pesquisa feita pelo IBOPE destoou radicalmente da realidade

Ninguém sabe se José Sarney (DEM) é do Maranhão, ou se o Maranhão é de Sarney. Mas, o que podemos constatar é que a família desse “representante do povo” manda naquele Estado. Na eleição para governador de 2006, as pesquisas feitas pelo IBOPE, que é colocado acima de qualquer suspeita pela maior parte da população brasileira, apontavam que Roseane Sarney (DEM) venceria as eleições ainda no primeiro turno. Ou seja, segundo o IBOPE, Roseane teria mais de 50% dos votos.
Entretanto, Jackson Lago (PDT) contrariou todas as pesquisas de opinião e foi eleito no segundo turno com 51,82% dos votos contra 48,18% da candidata do DEM.
As pesquisas, no mínimo equivocadas, foram encomendadas pela TV Mirante - afiliada da Rede Globo no Maranhão -, que pertence a Roseane Sarney, e que não por acaso foi fundada pelo ex-presidente Sarney.

Índices fraudulentos na Argentina
“As mentiras que estão introduzindo na economia terão efeitos extremamente negativos a longo prazo”
Alberto Cavallo

O Instituto Nacional de Estatística e Censos de Argentina (INDEC), que é ligado diretamente ao Ministério da Economia e Finanças Públicas daquele país, está divulgando, em 2009, pesquisas de inflação fraudulentas, segundo o economista argentino Alberto Cavallo.

No blog InflacionVerdadera, Cavallo, que está escrevendo sua tese de PhD em economia na universidade de Harvard (EUA), aponta, em parceria com outros economistas, índices alternativos de inflação. “Em meados de 2007, os jornais argentinos começaram a questionar duramente os números oficias. O argumento era que qualquer um que fosse a um supermercado notaria aumentos muito mais altos do que os publicados pelo INDEC”, diz Cavallo.

O governo de Cristina Kirschener usou os números para ludibriar a população, forjando uma estabilidade econômica “Em um intento de minimizar os custos políticos e continuar projectando publicamente uma imagem de crescimento sem inflação, em Janeiro de 2007, o governo decidiu 'intervir' no lINDEC. A partir desse momento os índices de inflação começaram a ser muito suspeitos”

Segundo as últimas pesquisas do INDEC a inflação argentina não tinha ultrapassado os 8 por cento, no primeiro semestre de 2009, porém segundo Cavallo, esse número é, no mínimo, três vezes maior, chegando a mais de 30 por cento.

Bom, invariavelmente pesquisas são usadas pelos governos de todo mundo para enganar a população, acredite ou não.

Caso Proconsult
Empresa, que era ligada ao regime militar, fraudou o resultado das eleições

Em 1982, as eleições para o governo fluminense foram marcadas por uma tentativa de fraude clamorosa. As pesquisas de opinião davam vitória certa para o candidato da ditadura, apoiado pela Globo, Moreira Franco.

Naquele ano disputavam o pleito Sandra Cavalcanti (PTB), Lisâneas Maciel, (PT), Miro Teixeira (PMDB), Moreira Franco (PDS, antigo Arena) e Leonel Brizola (PDT).. A Proconsult, empresa responsável pela apuração fraudulenta das urnas, computou votos nulos e brancos para o candidato da Arena – antigo partido da ditadura, hoje PDS -, Moreira Franco, que assim venceria a eleição.

O PDT não se conformou com o resultado informado pela Proconsult e contratou a Sysin Sistemas e Serviços de Informática para fazer uma apuração paralela. O resultado divergiu completamente do oficial. E não foi só a Sysin que contestou os números, o Jornal do Brasil também deu grande ênfase para o caso. Diante das novas apurações, o recém-anistiado Leonel assumiu o cargo de governador do Rio de Janeiro.

O então dono da Rede Globo, Roberto Marinho, foi acusado de participação no esquema.

As favas com as pesquisas

As pesquisas de opinião servem para influenciar o seu comportamento, e não são, nem de longe, verdades inexoráveis. Uma pesquisa traz um resultado que corresponde a determinados interesses, que podem não ser os seus. Sendo assim, cuidado com os números.

Thiago Menezes

2 comentários:

  1. Thiagão,
    Acredito que, pela amostragem muito pequena, será cada vez menos possível confiar em pesquisas. Especialmente as eleitorais, geralmente encomendadas pelos partidos - ou instituições com interesses no pleito.
    Números e humanos são manipuláveis. Aqui em São Paulo, lá em Brasília, sobretudo no Maranhão. E a culpa também é de nossos pares da mídia, que mantém o sol tapado com a peneira!
    Rodrigo De Giuli

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  2. Não dá pra confiar mesmo. Se acreditar em um político ou numa eleição é uma saga, imagina em dados que qualquer um pode manipular.

    Fernanda Figueiredo

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