27 de setembro de 2009

UMUNDUNU - QUANDO O FÜHRER ENCONTRA O DONO DOS PORCOS



“O permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos distinguem a época burguesa de todas as outras” (MARX; ENGELS “O Manifesto Comunista”, p. 37)


Duas escolas, duas teorias, dois filmes, 20 anos depois. Os documentários Arquitetura da Destruição (Peter Cohen, 1989) e Ilha das Flores (Jorge Furtado, 1989), não têm como coincidência apenas o ano de produção. Ambos são filmes que desnudam, ainda que de forma diferente, o discurso social e político dos temas abordados.

Embora os filmes sejam críticos, eles destoam na forma de contar a história. Enquanto Arquitetura da destruição busca, em sua montagem e edição, uma conformidade funcional com o assunto retratado, Ilha das Flores, pelo contrário, utiliza-se de inovações técnicas e de um “realismo fantástico”, além do materialismo dialético, para expôr a mecânica da sociedade de consumo.

1. Arquitetura da destruição: O projeto político nazista

Um breve olhar para o projeto político Nacional-Socialista alemão, sob a ótica definida pelo método de análise materialista dialético, evidencia o caráter não somente anacrônico como também contraditório em sua arquitetura. Em primeiro plano, sua postura purista racial num momento em que as potências econômicas mundiais viabilizam a revitalização do processo de expansão do capitalismo, com a ampliação de mercados em regiões racial e culturalmente pluralizadas pelas políticas coloniais anteriores. Um mundo amplo em que as relações sociais deslocam-se do eixo da individualidade para o âmbito impessoal mediado por categorias econômicas. Em que características raciais e culturais estão fadadas a conviver em união rumo à ascensão representada para progresso e o desenvolvimento. É o Funcionalismo – moderadamente positivista e liberal democrático – rumo ao esgotamento das fronteiras, ou seja, à sua auto destruição.

Entretanto, do ponto de vista estritamente positivista, o filme mostra o profundo comprometimento do ideário nazista com a limpeza étnica e o higienismo cultural através da uniformização social. O fim do indivíduo. O “corpo” alemão, com seu organismo funcionando adequadamente. As doenças, os ratos e os vermes liquidados. É a “continuidade entre a ordem biológica e a ordem social” (MATTELART, “O organismo social”, 1999, p. 17). Os degenerados eliminados com prontidão. Apenas um trabalho que deveria ser feito, pelo bem da Alemanha e do Terceiro Reich. O ariano superior política, social e economicamente. Como teorizou Sighele: “sobre a psicologia dos povos, fazendo elemento determinante da hierarquia das civilizações (...) a ‘alma da massa’, ser autômato em relação aos indivíduos que o compõem” (idem, p. 25).

Neste caminho trilhado por Hitler e seus seguidores era possível ver toda uma “fórmula científica” pronta. Uma nova sociedade sendo contruída a partir do empirismo e de uma ciência social (idem, p.29). A medicina usada com propósitos de limpeza étnica. Movimento acentuado quanto mais próximo a Alemanha ficava da derrota na Segunda Guerra Mundial. Colocada em prática nos campos de concentração nazistas, a “solução final” foi o ápice dos métodos higienistas durante os horrores do holocausto, em que registra-se num discurso o führer dizendo “sinto-me como o Robert Koch da política”.

Adolf Hitler, líder do partido Nacional-Socialista e chanceler durante a reconstrução da Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial, era um pintor frustrado. Afixionado pela cultura greco-romana, o führer nunca escondeu gostar de arte. Montou museus, comprou obras de artistas famosos, projetou cidades. Contudo, Hitler, para a completa idealização do seu projeto estético, considerou parte das obras como degeneradas. Eram trabalhos de arte moderna, de artistas judeus, bolcheviques ou considerados não-arianos. Desta forma, o chanceler via uma oportunidade de uniformizar o padrão estético e da cultura alemãs, através da propaganda. Esta, por sua vez, era disseminada pelo rádio e, especialmente, pelo cinema.

A propaganda constitui o único meio de suscitar a adesão das massas; além disso, é mais econômica que a violência, a corrupção e outras técnicas de governo desse gênero (idem, p. 37). E a ideologia nazista soube, até sua derrocada, utilizar-se da propaganda. A uniformização nos padrões de comportamento, o apego ao coletivismo em detrimento do indivíduo e o esforço na guerra mostram exatamente como foi o poder da estética nazista – ou melhor, “hitleriana” –, da perfeição e da beleza. Era o trabalho de purificação e preservação de uma raça, através da eliminação das diferenças. Não poderia sobrar nada que corrompesse o que fora definido como “limpo” ou “saudável”.

2. Ilha das Flores: Sobre humanos e suínos

Como pensar de maneira racional, quando certos seres humanos estão abaixo da linha dos porcos na cadeia alimentar? O discurso do filme, instrumento para denúncia, não é fechado em si mesmo. Sua contemplação é ampla e seu entendimento, irrestrito. A técnica é utilizada, sobretudo, em prol do senso crítico. Não há manipulação. Esteticamente revolucionário, o documentário mostra a vida difícil dos moradores de um aterro sanitário, na Ilha das Flores, no Rio Guaíba, região metropolitana de Porto Alegre. Com um formato “circular”, o filme conta a história da humanidade e de seu aprimoramento até chegar ao assunto propriamente retratado. Da plantação de tomates à ilha, do “tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor” à espera pelas sobras dos porcos.

O que nos faz diferentes em relação ao restante do mundo animal também é o que nos aprisiona no consumismo, no egoísmo e na ambição do lucro. Estamos mesmo abaixo dos suínos. O documentário dá os mecanismos para uma visão crítica da sociedade capitalista moderna, como queria Max Horkheimer, ao assumir o Instituto para a Pesquisa Social, em 1930 (SANTOS, “As teorias da comunicação”, p. 87). Horkheimer adotou esta postura de investigação crítica marxista, especialmente entre a classe operária, já nas primeiras obras, publicadas na Revista de Pesquisa Social.

Mas a racionalidade científica, segundo os criadores da Teoria Crítica, não teria libertado o homem das trevas e o aprisionado na técnica? E esta, na sociedade capitalista, em lugar de garantir a autodeterminação dos indivíduos, submeteu-os à dominação de uma sociedade regida por princípios econômicos, excluindo a condição de se insurgirem contra o sistema estabelecido (idem, p. 88). De acordo com Teodor Adorno e Max Horkheimer, a comunicação representa portanto, “(...) uma categoria ideológica, cujo questionamento deveria ser necessariamente crítico, ou seja, vinculado à sua própria descontrução” (RÜDIGER, “Introdução às teorias da comunicação”, p. 90).

Ao contrário da Teoria Funcionalista, de caráter positivista, a Escola de Frankfurt, como ficou conhecido o Instituto, tinha outro viés. Buscava, na Dialética do Esclarecimento, lutar contra a padronização da sociedade. Segundo a Teoria Crítica elaborada por Horkheimer e Adorno, durante o exílio de ambos nos EUA, como extensão o conceito de Indústria Cultural designa a maneira como a cultura foi apropriada pelo capitalismo industrial e transformada em atividade econômica a serviço do controle social, que manipula a consciência das massas (SANTOS, “As teorias da comunicação”, p. 88). A cultura de massas surge, então, no processo de homogeneização dos meios de comunicação visando o mercado. Portanto, Indústria Cultural e Cultura de Massas passam as ser indissociáveis.

Juntando as peças

O documentário Ilha das Flores segue o caminho da dialética. Ele trabalha, com sua linguagem ampla e moderna, na espectativa de que o indivíduo faça seu julgamento. Os recortes estão todos lá. Basta ao espectador – que tiver interesse em ver ambos os documentários depois de 20 anos – juntar as peças e montar o quebra-cabeça.


3. REFERÊNCIAS:
SANTOS, Roberto F. As teorias da comunicação: da fala à internet. São Paulo: Paulinas, 1999 (Parte II, capítulos 1 e 2)
RÜDIGER, Francisco. Introdução às teorias da comunicação. São Paulo: Edicon, 2004 (Capítulos 3, 4 e 5)
MATTELART, Armand e Michélle. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 1999 (Parte I)
ARQUITETURA da destruição (Architektur des untergangs). Direção: Peter Cohen. Suécia, 1989.
ILHA das Flores. Direção: Jorge Furtado. Brasil, 1989.


Claudio Zumckeller e Rodrigo De Giuli

5 comentários:

  1. Paulo Roberto Schiolli1 de outubro de 2009 15:29

    Apesar de acadêmico e pesado, muito boa a análise dos documentários. Assisti ao Ilha das Flores, faz tempo, mas um filme onde a dialética está presente no discurso. Muito bom! Ainda não vi o Arquitetura, mas parece-me também muito bom. Pena que o texto é muito pesado, muito analítico e acadêmico.
    Boa sorte ao pessoal do blog, continuem assim!

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  2. Naná Dischenberger2 de outubro de 2009 15:57

    Puta cara chato este Paulo! Os meninos estão na faculdade, deixe eles escreverem o que bem entenderem...
    Beijos e sucesso, o blog é bom pra caralho!
    Naná Dischenberger

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  3. Caros Paulo Roberto e Naná,
    Vamos combinar uma coisa agora? Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Obrigado pela audiência/presença de vocês aqui no 7CISMO. Ficamos - acho que falo em nome do Claudio também - felizes em saber que nosso trabalho mexeu com vocês. Positiva ou negativamente, a missão dos 7cos é que a leitura dos textos do blog incomodem ao máximo, façam com que todos reflitam sobre o mundo que os cercam. Repito, não procuramos elogios fáceis nem queremos críticas sem fundamentos. Aqui o espaço é de vocês. Continuem criticando, elogiando, sugerindo, brigando ou se amando em nossas "páginas".
    Um grande abraço e muito obrigado,
    Rodrigo De Giuli

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  4. http://www.baguete.com.br/colunistas/colunas/31/janer-cristaldo/23/03/2011/palhacos-aplaudem-batedores-de-carteira#comment-13556

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