9 de setembro de 2009

UMUNDUNU - À MALANDRAGEM


Como diz José Saramago, “a humanidade está rumando cada vez mais para o grunhido”. A nossa pseudo-evolução de linguagem (vide “vc”, “naum”, “intão” e outros) está longe de chegar ao melhor que já tivemos. Essa involução pode ser notada também na música. Vamos aos fatos:

Quase todo brasileiro considera-se malandro. A malandragem está associada à vadiagem, ao jeito de se vestir, ao modo de “ganhar” a vida e à MÚSICA também.
Em outros tempos, o malandro escutava o samba de Sinhô, Donga, Noel Rosa, Ismael Silva, Wilson Batista, Adoniran Barbosa. Ou seja, o malandro era o responsável pelo mais sofisticado e inovador estilo da época: o samba, que apesar de marginalizado pela elite cabeça oca, fazia sucesso entre intelectuais e sambistas.

Cartola, que era analfabeto, abusava da genialidade nata do malandro, genialidade que só tem quem conhece a rua.
Apesar não de ter tido acesso à educação ortodoxa, Cartola compôs versos como “Todo tempo que eu viver / só me fascina você / Mangueira / Guerriei na juventude / fiz por você o que pude / Mangueira / Continuam nossas lutas / podam-se os galhos / colhem-se as frutas e outra vez se semeia / e no fim desse labor / surge outro compositor, com o mesmo sangue na veia” ou “Oh, maldito preconceito / Afasta-te no ajeito, a que nada conseguirás / Por que recebemos dos céus a benção de Jesus, que é mensagem de paz”.

Bezerra da Silva, pernambucano radicado no rio, escrevia sobre o crime, favela, maconha, polícia... Mesmo entrando em temas tão polêmicos, Bezerra teve espaço na indústria cultural e vivia no limite entre o marginal e o pop.

Décadas depois o RAP dividiu o lugar com o samba no imaginário do malandro; há dez anos, na periferia de São Paulo, o RAP (que valoriza a letra e quase sempre trata de temas sociais) era o ritmo mais ouvido entre os malandros da vila. Os Racionais MC´s foram o maior fenômeno da minha geração. Não tocavam na TV nem no rádio, além de não contarem com o aporte de uma grande gravadora.
Mesmo assim todo malandro sabia cantar “Um dia um PM negro veio embaçar / E disse pra eu me pôr no meu lugar / Eu vejo um mano nessas condições: não dá / Será assim que eu deveria estar? / Irmão, o demônio fode tudo ao seu redor / Pelo rádio, jornal, revista e outdoor / Te oferece dinheiro, conversa com calma / Contamina seu caráter, rouba sua alma / Depois te joga na merda sozinho / Transforma um preto tipo A num neguinho”.

Hoje, infelizmente, o funk carioca é o ritmo do momento. O mané, que se diz malandro, anda com um celular pendurado no pescoço no último volume tocando “proibidão”.
E eu, várias vezes depois de um dia infernal, ao me sentar no banco do coletivo cheio, e tentar, mesmo com sono, ler os versos de um livro do Edgar Allan Poe, tenho que ouvir Mc G3 cantando “Nos três cu eu meto bala”. Bom, eu nem me atrevo a comentar esse tipo de letra, vou deixar a conclusão com vocês...


“Nos três cu eu meto bala”.

“Vai ve, vai vermelha, vai ve, vai vermelha, vai ve, vai vermelha,
canta pá comigo,
nos 3 cu eu meto bala, vaaaiiii!
Meto bala, meto bala,
mais nos 3 cu eu meto bala, vaaiii!
Vem viado,
nos 3 cu eu meto bala
vem Duda do bordel,
tu é nóis em,
mais nos 3 cu eu meto bala, vaaaiii!
ó, e o sea artilharia
que fortaleceu de fato
nosso bonde, é bolado
nóis já voltamos pro sapo
vou te dar-lhe um papo reto
pois se liga ai então
favela da nova holanda, e o parque união
esse bonde, é bolado
esse bonde, é guerreiro
eu sou da cidade alta sou do bonde do...
mais vou te dar um pao reto
nosso bonde sempre a bala
quero ouvir vocês cantar, nos 3 cu eu meto bala
então!!
nos 3 cu meto bala, vaaiii!!!
"meto bala"isso
mais nos 3 cu eu meto bala vaaaiii!!!!!”


Thiago Menezes

4 comentários:

  1. Malandro que é malandro não avisa que mete bala! Aliás, malandro que é malandro... Bem, deixa para lá!
    Rodrigo De Giuli

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  2. Pois é senhores. Já dizia o mestre "malandro é malandro, mané é mané", sempre foi assim e nunca vai mudar. Quanto mais mané melhor, sobra mais para nós...

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  3. O pior tipo de otário é o otário que se acha malandro. O pior tipo de malandro é o malandro que que se faz de otário. Resumo malandro quer ser otário e otário quer ser malandro. Tem uma historieta que diz que um helicóptero com dois senadores a bordo sobrevoava o presídio de Catanduvas e ao avistarem dois presos que tomavam banho de sol, um deles disse: Olha lá os malandros. Nesse exato instante, um dos presos, ao perceber o Helicóptero disse: Olha lá aqueles otários passeando.

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