17 de setembro de 2009

UMUNDUNU - E O PALHAÇO, O QUE É?




Crônica de um sonho.


A visão da grande tenda colorida, no alto da colina, me encheu a alma de curiosa e alegre ansiedade. Acelerei a passada. Queria descobrir o que havia naquele iluminado interior. Sentia um friozinho no estômago, coisa boa de experimentar. Dizem que a paixão também causa semelhante sensação. Quem já padeceu desse bem deve saber do que se trata. Resoluto, prossegui meu caminho.

O pátio de entrada abrigava um colorido festival de carrinhos de pipoca, algodão doce e maçãs do amor. As crianças e suas bochechas lambuzadas passeavam seus olhares plenos de encantado brilho, enquanto os recepcionistas distribuíam cordialidades profissionais.




Crédito: br.olhares.com
À esquerda do círculo principal, uma banda caprichosamente uniformizada em tons de vermelho e dourado sapecava a marcha frevo. O naipe de metais com baixo tuba e trombone, o clarinete e o flautim, representando as madeiras, e mais, bumbo e caixa arrepiando na percussão.
Subitamente as luzes se apagaram, somente o repique da caixa permaneceu. Na arquibancada silenciaram os risos e o vozerio se acalmou. Abriram-se as cortinas, estava começando o espetáculo.

No picadeiro, sob poderosos holofotes, as atrações pisoteavam a serragem e desfilavam sorrisos em contínuo e solene circular. Exuberante, o cavalo bretão marchava indiferente às manobras da amazona sobre seu lombo. Os trigêmeos malabaristas ladeavam a sensualidade da trapezista. Quatro elefantes ligados pela tromba ao rabo desfilavam suas enormidades. Cor de terra, de rústica antiguidade, os paquidermes remetiam o olhar da ingenuidade à pré-história do Planeta. Teriam sido as primeiras criaturas?

Após o desfile de apresentação os astros principais retornaram à coxia. As cortinas desciam lentamente enquanto a trupe de palhaços se recolhia desastradamente atrasada.

O facho do canhão de luz isolou a figura do apresentador aprumado em fraque e cartola. Ele soltou uma voz vibrante e familiar que ecoou e envolveu totalmente o recinto:
- Respeitável público, boa tarde! Este é o maravilhoso mundo do circo.
Batuta em riste, ele marcou um compasso e perguntou cantando:
- Como vai, como vai, como vai. Como vai, como vai, vai, vai?
A platéia, entusiasmada, respondeu:
- Tudo bem, tudo bem, tudo, tudo bem. Tudo bem, tudo bem, bem, bem!

O diálogo entre o mestre de cerimônias e o público continuava:
- Hoje tem marmelada?
- Tem!
- Hoje tem goiabada?
- Tem!
- E o palhaço, o que é?
- É ladrão de mulher!

Foi bem aí! Foi exatamente nessa cena. De súbito transladei para desértica e inóspita região. Tive a impressão de ter passado toda uma vida inquieto em busca da razão daquela afirmativa: O palhaço é ladrão? E de mulher! Onde e quando teria surgido tal idéia.

Enquanto me encontrava envolvido em tal impasse, um inesperado e profundo sono me arrebatou da cadeira nº 43 e me despejou em um intrigante sonho. Uma viagem onírica cujo roteiro me sinto impelido a relatar ao desavisado leitor que, por hora, na posse de sua plena liberdade, há de querer abandonar esta leitura sob protestos diante de tamanha incoerência. Todavia, se por acaso alguma alma melhor provida de tolerância, permitir-se o compartilhar, agradeço de boa vontade.

Sonhei que sobrevoava um cerrado quando avistei o imenso corredor de monumentos onde duas enormes calotas arquitetônicas flutuavam. Reconheci as sedes do Senado, à esquerda, e da Câmara dos Deputados, à direita.

Entre as imponentes cuias invertidas, percebi dois espigões enjanelados espiando acortinados. Cheguei a sentir suas respirações baforavando um ar agradavelmente temperado.
Interligados por magníficos e opacos túneis, observei que outros prédios do entorno eram também ocupados pelo Congresso.

No meio de um eixo monumental, vi erguer-se, nascendo das profundezas do espelho d’água, cavado em viçoso verde, o edifício principal. Exuberante presença que a praça dos Três Poderes, qual mãe orgulhosa, acolhia para compartilhar as companhias dos palácios do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.

Vaguei por limpos e amplos boulevares, onde negros automóveis blindados desfilavam a desembarcar, ininterruptamente, deselegantes engravatados que sorriam apressados e falavam ao celular. Fotógrafos impiedosos me metralhavam com seus relâmpagos. Em deslumbrada correria, repórteres acotovelavam-se com microfones em punho.

Sisudos seguranças exibiam orgulhosas musculaturas e alguns jornalistas, discretamente prediletos, privavam da simpatia e cumplicidade dos figurões principais.

Por acaso, embarquei em um “bonde andando”. Me peguei a ouvir o pequeno trecho de uma conversa envolvendo dois homens que me pareciam ser deputados. Disse então, um deles:
- Bom, tudo bem então, te espero no final da tarde para tomarmos algo.
Distraídamente o outro respondeu com uma pergunta:
- De quem?

Apressados eles se separaram enquanto escuras viaturas circulavam vigilantes observando vão por vão.

Próximo dali, à poucos metros do fuzuê oficial, percebi diversas manifestações.
Simultaneamente ao pequeno grupo indígena que gritava palavras de ordem em desconhecido idioma, um punhado de jovens com os rostos pintados berrava em bom português, uma indistinguível indignação.

Próximo dali, barracas de pequenos agricultores fumavam fogões portáteis e embandeiravam o acampamento em um eslamaçado gramado. Cavalarianos troteavam vistosos seus contrariados equinos. Um grupo de celebridades artísticas passou conduzido por inflados acessores e seguiu indiferente aos meninos que pediam autógrafos.
Sem que eu tivesse perguntado, uma bela senhora me confidenciou:
- O presidente e o ministro da fazenda almoçaram na Granja com banqueiros e outros grandes empresários.
De repente um corre-corre súbito empastelou desnorteadas afirmações:
- Fulano acabou de entrar por ali!
- Beltrano saiu pelos fundos!
- Cicrano chegou à noite, de helicóptero!

Caía a tarde e o crepúsculo dourava e enegrecia as silhuetas. As emissoras de rádio e televisão já desmontavam seus plantões, quando o pequeno e velho aeroplano rugiu seu motor na atmosfera. Atônitos, todos ergueram os olhos aos céus e perceberam o paraquedista que descia suavemente. Quanto mais ele se aproximava maior era o frissom. Parecia cinema! Era um sonho?

Quando finalmente aterrizou, aquela explendorosa e colorida figura, não houve rosto que não esboçasse a expressão de maravilhada surpresa.
- É o Piolin! – gritou um senhor.
- Não, é o Bozo! – retrucou uma senhora.
Todos, sem excessão, pasmaram ante a inesperada aparição.

Logo que se recompôs da queda o arlequim acertou o posicionamento de seu redondo nariz, ajeitou a cabeleira lateral e, num truque de magia, disparou a velha carabina. O disparo cuspiu uma flâmula que tremulava os dizeres: “Por conta do nomadismo cigano, origem dos saltimbancos, o palhaço recebeu, na antiguidade, o estigma de ladrão”... Reconheci que estava sonhando e pude ler o final: “Portanto, em nome da categoria, repudiamos a comparação. Palhaço e ladrão não comungam o mesmo corpo, por isso jamais chame um político de palhaço”.
Naquele momento, uma voz grave e sussurrada ecoou irônica:
- Está próximo o dia em que algum clandestino sindicato dos ladrões comuns há de assumir semelhante reinvidicação.
Despertei!

Claudio Zumckeller

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