3 de setembro de 2009

UMUNDUNU - ANTICRISTO (ANTICHRIST)



"O senhor faça o favor de explicar por que fez esse filme?” - vociferou o jornalista em sua primeira pergunta.
"Não tenho que me justificar. Não preciso me desculpar por nada. Vocês são os meus convidados, não o contrário”.

Extremar a dor de uma perda até o último instante, para assim, conseguir a superação. Ou pelo menos tentar...





O novo filme de Lars von Trier, diretor de “Dogville”, “Os Idiotas”, “Dançando no Escuro”, criador do movimento Dogma 95; em partes, mudou sua temática. Inúmeros jornalistas e críticos puritanos rotularam o filme de: trash, gore, porn-gore; disseram que von Trier errou à mão, que utilizou cenas chocantes desnecessárias, que a qualidade de seus filmes está caindo vertiginosamente... Balela! Papinho de católico apostólico romano enrustido, que foi assistir ao filme com um pé atrás por causa do seu título, e além de tudo, não entendeu porra nenhuma; como o livro “O Anticristo” de Friedrich Nietzsche, o qual o diretor afirma que é seu livro de cabeceira.
No filme, o suspense e os caos reinam do início ao fim.

Sua narrativa é dividida em capítulos: “Prólogo”, “Luto”, “Dor (Caos Reina)”, “Desespero (Ginocídio)”, “Os Três Mendigos” e “Epílogo”.
A maravilhosa e absorvente fotografia foi feita por Antony Dod Mantle (Quem Quer Ser um Milionário).
Vamos à estória do filme:

As personagens não têm nome, temos apenas o homem e a mulher. O homem é interpretado por Willen Dafoe e a mulher por Charlotte Gainsbourg, atuação que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz em Cannes.
Como nos filmes anteriores de Lars von Trier, a sinopse é descartável: “Após a morte de seu filho, casal se muda para um lugar isolado. Algum tempo depois, coisas muito estranhas começam a acontecer no local e a vida do casal poderá ficar ainda pior do que estava”.

Os primeiros 5 minutos são retratados de forma magistral: uma cena de sexo em preto e branco, a tão falada penetração filmada em close, a trilha sonora Lascia Ch'io Pianga, interpretada por Tuva Semmingsen, tudo isso intercalado com as imagens da morte do pequeno filho. O trecho é puro lirismo.

Depois da morte de seu filho, a mulher entra em uma depressão profunda, com ataques de angústia e ansiedade. Seu marido, psiquiatra, decide tratá-la sozinho.
Seguem assim rumo ao Éden. Isso mesmo, Éden é o nome de uma cabana, totalmente isolada da civilização, que o casal se refugia para resolver o problema.
Em uma das fábulas da bíblia, Jardim do Éden, é o local da primitiva habitação do ser humano, em meio à natureza.
Em um diálogo na cabana, a mulher diz: “a natureza é a igreja de Satã”.
Para os mais desavisados, Anticristo trata principalmente da natureza humana e nos mostra que não há moralidade nenhuma que suporte o encontro com nossos sentimentos mais primitivos.

A partir daí, o filme inteiro se passa no Éden. No alto da montanha, cercado por uma natureza intimista, com suas árvores de galhos retorcidos e muita neblina, o homem começa o seu tratamento psicanalítico sobre a mulher.
O tratamento parece surtir efeito, mas não, ela durante todo o resto do filme age com bipolaridade, seus sentimentos vão da tranquilidade ao ódio em questão de segundos.
Ela afunda na dor cada vez mais.

Num passado recente, a mulher foi à cabana com seu filho para escrever uma tese sobre ginocídio – maltratos e assassinatos de mulheres – correlacionada com a Idade Média, em que milhares de mulheres foram mortas pela “santíssima igreja”.
A partir dessa informação, parece que o sobrenatural começa a agir. Mas só parece, na realidade as cenas que seguem são de pura loucura e abstracionismo da mente humana.
O homem também perde um pouco da razão, fica claro na cena que, ao ver uma raposa com as tripas expostas, a mesma se levanta e diz: “Caos reina”.

Antes “taciturno”, o caos agora se faz presente.
As cenas que os jornalistas e críticos puritanos tanto reclamaram surgem na tela. Mutilação genital, masturbação e perfuração de membros.
Cenas chocantes sim, mas não são levianas. Foram colocadas no filme além do intuito de provocar, mas sim, para mostrar que a dor da perda e a psique humana podem chegar a níveis inimagináveis.

O final levanta inúmeros questionamentos, e novamente, o sobrenatural também parece presente. Não darei mais detalhes sobre o fim, isso é com vocês.

Anticristo me fez lembrar outro filme, o clássico “O Iluminado”, protagonizado pelo sombrio Jack Nicholson. Simplesmente pelo fato que de o isolamento pode ser fatal para as faculdades mentais de algumas pessoas.

Lars von Trier fez uma obra arte. Leva certo tempo para digeri-la por completo, são inúmeras teorias sobre seu real significado.
Sobre o filme, só tenho uma certeza: não se trata da infantil briguinha de deus e o diabo.
Eles são apenas simbolismos na película.
Como se deus fosse fauna e flora, e o Anticristo nossos primitivos e “desconhecidos” sentimentos. Nossa real natureza.
Não se sinta ofendido, ok?

Felipe Payão

18 comentários:

  1. Parabéns pelo seu texto.
    Sou admirador da obra de Trier e você conseguiu captar múitíssimo bem o conteúdo da obra.
    Obrigado.

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  2. Se a Igreja criticou O Código da Vinci, imagino o que irão falar sobre esse filme...

    Parabéns ao blog.

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  3. Bom post, mas nao dá pra comparar com O Iluminado e a interpretação magistral de Jack Nicholson.

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  4. Não poderia deixar de dizer que me surpreendí com o texto apresentado. Excelente e admirável.

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  5. Pq não pode comparar o iluminado?O anticristo é maravilhoso,vou digerí-lo por mt tempo.Ótimo texto!

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  6. Por falar em O Iluminado.. alguem ja assistiu Persona? Tbm é um filme q retrata um pouco esse negócio de isolamento...

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  7. Pq as pessoas querem digerir filme? Não é comida! Apesar de que o que mais aparece no filme é comida, porém não no sentido real da palavra. Única coisa boa no filme é o prólogo e a cena da hipnose em que ela entra na floresta. É fácil fazer filmes sem explicação e deixar o público tentando entender o que não pode ser entendido. Não gostei do filme, não acrescentou nada na minha vida, respeito quem gostou, mas sinceramente acho que quem gostou foi porque não entendeu e acha brilhante filmes que não são entendidos. POde-se notar que ninguém sabe explicar o filme coerentemente e diz que o entendeu.

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  8. Olha, achei um filme interessante, mas não por isso uma obra de arte como o texto fala; mesmo assim não consegui abstrair da película uma explicação concreta, a não ser realmente o isolamente humano e descrição da dor... Não deu realmente para se ter uma conclusão, foi meio que vago... Como o rapaz acima disse: todos que disseram que adoraram/acharam o filme uma obra de arte... creio que não entenderam. É o típico filme dedicado para a crítica. Nem os próprios críticos entendem nem o próprio diretor... nota 5

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  9. primeiro que o cara não é um psiquiatra. ele não é médico, ele critica médicos, logo, ele é um psicólogo, nada mais.
    segundo que não sou puritana, não sou católica, sequer acredito em Deus e achei o filme no minimo desnecessário em várias partes. Nudez e sexo não me chocam, não me dão nojo, é algo que gosto e faço com muito prazer, logo a sua exposição em demasiada me dá o tom do ridículo, do "o que estou fazendo aqui?"
    e não me importa quantas metáforas esse filme tenha ou deixe de ter, as entendi todas ao longo do enredo, e sinceramente gostei delas, mas as cenas não deixaram de ser desnecessarias. Me soa tão poético quanto Jogos Mortais e tantos outros com mutilações.
    O filme peca sim pelo excesso, por um diretor que julgou sua platéia puritana.

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  10. o filme foi otimo as cenas explicitas dão um toque a mais no filme, sem isso seria apenas mais um filme qualquer que agente vê.

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  11. Assisti ontem o filme .Adorei o texto sobre o filme . Recomendo o filme .Mas assistam com atenção ,desarmados . Não sofri nenhuma perda ,não sou louca , mas me coloquei no lugar dela,dele,e nada no filme me soou inadequado,que foi feito para a crítica ,para chocar a igreja , ou para o que quer que seja . William Dafoe magistral , ela estupenda.Na medida certa ,o nu , sexo , tudo.
    Estou na torcida para assistir Das Weisses Band .

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  12. Ola,

    Notei no blog de vocês que estão falando do filme Anticristo da California Filmes.

    Gostaria se possivel de algum contato para que possamos trabalhar sempre juntos.

    Podemos fazer variadas parcerias promocionais. O que acham?

    Atenciosamente

    rodrigo@californiafilmes.com.br

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  13. Correlacionada com a Idade das Trevas?

    Idade Média, por favor né, já passamos do Iluminismo faz tempos... ahahahaha

    Muito grato.

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  14. Acho este filme GENIAL! Prova totalmente o que Vont Trier é um Génio. Para mim, este filme vai muito além das cenas violentas. Inicialmente, a abordagem aos "três mendigos" - Luto, Dor, Desespero, é transfigurado para o VEADO (Luto), a RAPOSA (Dor) e o Corvo (Desespero). Os três mendigos vão sendo apresentados ao longo do filme, um a um.Primeiro vê-se o veado a parir um filho morto (LUTO),depois vê-se a Raposa (Dor) a comer o filho do veado (Luto) = Dor come o Luto, e por fim apresenta-se o Corvo, dentro da cova com o actor, no momento do desespero. E quando aparecem os três juntos, é quando "alguém tem de morrer"! O problema é que só o Actor é que via os Três Mendigos,o que nos diz que seria ela que ia morrer!
    Para além disso, vemos um casal disfuncional por culpa de uma mulher disfuncional, que pôs o intercomunicador do bébe em SILENCIO, para nao ser acordada enquanto fazia SEXO! E na parte em que todos dizem ser desnecessária, o Corte do CLITORIS, sendo esse o climax do filme, antes de ela o cortar, vê-se um pensamento dela, que nos prova que ela viu o filho a subir à cadeira e ir em direcção da janela. ELA DEIXOU O FILHO MORRER, PREFERINDO UM ORGASMO, PREFERINDO O PRAZER. Por isso, por nao aguentar a dor, por ter preferido o prazer, corta o seu proprio clitoris, para nunca mais sentir prazer. O filme fala da inquisição, da turtura que foi feita às mulheres que nada tinham culpa.
    O filme ainda fala de ADAO E EVA, de EDEN, do filho de satanás, sendo satanás a mulher e o anticristo o bebe que morre, que segundo a religiao, quando o filho de satanas, ANTICRISTO, vem a terra CRIA O CAOS!
    Antes de comentarem o filme, vejam o seu todo!

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  15. então não é um filme, é um estudo psicologico.

    quem não é formado em psicologia não deveria assistir essa bobeira.

    eu posso dizer que a rapoza representa a riqueza, o veado ea esperteza e o corvo a liberdade.

    como vc me prova que não é? é fácil ficar inventando um tanto de coisa sem sentido para as pessoas ficarem fingindo que fazem analises fantasticas.

    ESSE FILME É COISA DE P.I.M.B.A(Pseudo intelectual metido a besta e associados)

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  16. ISSO AI É FILME PRA LOCO!! EU NÃO ENTENDI PORRA NENHUMA DO FINAL!!!! E VC DEIXA PRA GENTE PENSAR? AAAAAAA SACANAGEM!!! EXPLICA AI PO!

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  17. Bom, a única cena em que acho que ele exagerou um pouco foi na da penetração. Acho que interação entre os corpos insinuando sexo, como acontece nos demais filmes, seria suficiente para a cena.
    Quanto à ejaculação de sangue e a mutilação do cítoris, com certeza são chocantes, mas também são essenciaais para a estética do filme.
    Você fez um belo comentario, só que eu discorreria também da relaçao cristianismo-culpa, principalmente sobre a mulher.
    Parabéns pelo post.

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  18. Só uma coisa, o tratamento não era psicanlítico.

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