24 de setembro de 2009

REFLEXPRESS - ESTÚPIDO COTIDIANO


Após a leitura silenciosa do relatório dos meus exames, o doutor Praxiteles não conversou mole:
- Sua doença é aguda, meu caro! – disparou sem piedade.
E antes que eu pudesse questionar meu olhar entregou a dor. Perguntei:
- É grave doutor?
- Infelizmente é grave e carece de cuidados imediatos para que não se torne crônica – emendou com cruel sinceridade. - O tratamento é urgente, o mal é sério e o remédio não é barato.


- Como assim doutor, do nada? Estava tudo tão bem – sugeri humilde e acabado.
- Pois é! – disse ele, prosseguindo conformado com aquilo que não era em sua pele.
-Assim é que é! Quando menos a gente espera, surge o mal, abrupta e insidiosamente – a saúde vaza.
- Fazer o quê? Amanhã é outro dia – eu disse, ao me despedir e saí injuriado do maldito consultório rumo ao outro dia.

Logo cedo, banho e barba. O sangra queixo, a escova e o pelo. No aprumado, o desalinho, nas axilas, ar de pinho. Meti o pé na rota e dá-lhe gás, estava sem troco, estava em paz. E toca o trem no tranco e solavanco. Passa dentro, passa fora. Cai barraco, desliza barranco. Trina o fone, soam falas. “Está aonde... Aonde estou?” Vou pro trabalho. É... é o jeito. Valeu... Vamos a luta, não é mole essa labuta. Ainda há chance pro futuro, um porto seguro, quem sabe? Está chegando, estamos indo, vamos juntos. Ascendo luz, estendo a rede, caiu é peixe. Não vacilo, olho o ponto. Daqui a pouco vem a hora o tempo esgota.

Está bem perto. Estou chegando, estou chocado, estou zangado. Felizmente, injuriado, levo fé. Sou confesso, e meu excesso esquece o espaço. O dia é espesso e a tarde longa. Estou propenso à grande chance, um tiro certo. O meu cachorro, sem quintal e sem dono abana o rabo pro abandono. Sobe alta minha pipa sem o céu azul do mar. Nessa tela ainda não suo, mas já jogo futebol. Corro e dedilho a campina, meu cabelo sem o vento não revoa. Mato no peito, baixo na terra e toco a bola pra sacola. Tive todo o meu tempo furtado. Desde o tempo em que o tempo virou tempo de não ter tempo. E num todo lugar de um mesmo instante. Fora do eixo do nome das coisas. A sós com as coisas ensimesmadas. Exatamente ali, onde eu não sei. Revejo o curta via e-mail, aquele em que ela me devora e diz que adora enquanto eu roço suas coxas.

A barba cresceu. A orla, a brisa, ela e eu. Abro outro arquivo em busca de tempos perdidos. Sinto muito ter que me sentir assim, mas já vi essa cena. Não quero deixar rastros e, ao mesmo tempo, devo fincar sinais nos ares, vestígios para que nalgum dia, suspenso lá do futuro, os cyberarqueólogos, os garimpeiros digitais não lamentem minha civilização por inútil repetidora de mazelas de um estúpido cotidiano.

Claudio Zumckeller

2 comentários:

  1. Tomora que os cyberarqueólogos do futuro - se é que existirá futuro - encontrem o "Estúpido cotidiano", ao invés de outra repetição qualquer.
    Talvez nos livrem do esquecimento.

    Thiago

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  2. Ou nos deixem esquecidos de vez, por favor...
    Rodrigo De Giuli

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