16 de setembro de 2009

DITUDUMPOCO - UM TORTURANTE E FAMINTO PASSEIO ENTRE DESCONHECIDOS


O calor era infernal. O sol escaldante me derretia. Minha camiseta, já completamente encharcada, parecia saída de um filme do Stallone após aqueles treinamentos desumanos que o personagem Rocky Balboa pratica sempre que é desafiado por algum incauto que ainda não sabe a sova que vai levar. Mas isso é uma outra história.

Era meio-dia em ponto, estava faminto. O tempo corria e eu precisava chegar antes das 13 horas na avenida Rudge, longe de qualquer estação de metrô. Eu estava na Vila Mariana, então minha primeira opção era pegar o metrô e descer na estação Palmeiras-Barra Funda,depois de uma baldeação na Sé, e caminhar uns 2 quilômetros naquele sol de verão fora de época.

Crédito: exercicioesaude.com

Para quem é carioca, é como seguir de São Cristóvão para Jacarepaguá em janeiro. Se você for de Belo Horizonte, é como ir da Savassi à Venda Nova. Se nasceu em Porto Alegre, imagine ter que atravessar a cidade de Humaitá ao Belém Novo. O curitibano, só para ilustrar, terá que ir de Barreirinha ao Boqueirão. Feita a digressão, vamos à viagem...

Desci as escadas da Estação Vila Mariana e, após comprar o bilhete, passei os bloqueios. Já na plataforma algo me chamou atenção. Ninguém conversava. Poucas pessoas liam, muitas escutavam música, algumas delas faziam as duas coisas. Pequenos aparelhos pendurados na cintura. Diversos tamanhos de fones de ouvido. Alguns pareciam tiaras a segurar os longos cabelos, como o da loirinha com uma enorme mochila que, suponho, ninguém vai se oferecer para segurar no vagão lotado. Que fome!

O trem está chegando. Abre as portas, correria. Um "garoto" de uns 25, 30 anos passa à frente de um idoso. Revoltante esta lei do mais forte. O cara é maior, é mais jovem, tem saúde para correr e se sentar na frente dos idosos e mulheres grávidas. A loirinha entra na minha frente e logo se acomoda - com aquela mochila enorme - na porta do vagão. Ela vai descer rápido, deduzo. O idoso em pé. A mulher grávida também. Um senhor se oferece para a moça com o barrigão. Um policial militar no vagão pede a um rapaz dormindo - certamente está fingindo - que se levante e dê o lugar ao idoso. As coisas seguem nos trilhos.

Consigo me locomover até o centro do vagão. Estou faminto, não penso em outra coisa. Fico no centro do vagão, sigo a recomendação ao usuário que indica, nos cartazes das estações, como devemos nos portar nos trens do metropolitano. Túúúú (onomatopeia ridícula que será utilizada mais vezes neste desabafo: é o aviso sonoro que a porta vai fechar). Fechar? Outro "rapaz" segura o fechamento e entra expremido, suja todo o braço e a manga da camisa, antes branquinha. "Bem feito", pensei. Túúúú, de novo o aviso. Agora a porta se fecha. Estação Ana Rosa. Mais gente entra nos vagões. Está ficando apertado. Mais idosos em pé. Mais mulheres grávidas também. A loirinha não desceu.

Estação Paraíso. Agora danou-se! Tem a Linha Verde, a da Paulista, centro financeiro do Brasil, nossa "Wall Street". É possível encher mais do que já está? Claro, sempre cabe mais um, como dizia aquela propaganda "sei-lá-do-que". Será que a propaganda era de comida? Que fome! Muita gente, o trem está lotado. A loirinha ainda não desceu, mas está lá na porta, atrapalhando com aquela enorme mochila. Já não sinto mais pena dela, com aquele trambolho. Dane-se, que ninguém segure aquela mala sem alça - com um monte de alças, zíperes e chaveirinhos de pelúcia pendurados. Túúúú...

Estação Vergueiro. Descem algumas pessoas, sobem centenas! Túúúú... A loirinha ainda lá, parada feito um dois de paus. Estação São Joaquim. Alguns descendentes de japoneses que moram e estudam nas imediações da Liberdade descem do trem. Centenas sobem. São descendentes de japoneses que certamente moram e estudam nas imediações da Liberdade. Ali tem um monte de faculdades, cursinhos pré-vestibulares. Tem um monte de restaurantes de comida asiática, que eu não gosto. Mas eu bem que experimentaria agora.

Túúúú... A loirinha ainda está lá parada. Maldita mochila enorme, tomara que tenham chutado até quebrar alguma coisa lá dentro. Estação Liberdade. Mais descendentes de japoneses, coreanos, chineses. Túúúú... Começa uma movimentação diferente dentro do vagão que somente usuários experientes do metrô conhecem. É a aproximação da Estação Sé, a seguinte. A voz anasalada do condutor indica aos distraídos com os livros, revistas e jornais a chegada à estação mais movimentada da América Latina, a Sé. Blimblom (Sim, outra onomatopeia, desculpem!): "Estação Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem".

Centenas de milhares de almas correm para descer do trem. A plataforma lota. Correria, trombadas, sacoladas, bolsadas, mochiladas - enfim, a loirinha desceu. Túúúú, o alerta sonoro dispara novamente. Caminho pela plataforma em direção ao trem que vai para a Estação Palmeiras-Barra Funda, da Linha Vermelha. Ainda estou longe de meu destino, o relógio me intimidando, já era meio-dia e meia... Puxa vida, tem um Habib's na Avenida Liberdade. Tem a Padaria Santa Tereza, a mais antiga do país. Lá tem um pãozinho delicioso.

O trem encosta na plataforma, abre as portas, nova correria. O calor continua infernal. Há, olha lá quem está no mesmo vagão que eu, a loirinha com sua mochila monstruosa, os macaquinhos peludinhos parecem sujos, o gatinho rosinha me dá alergia e ânsia de vômito. Mas a fome não passa. Maldito verão fora de época! Túúúú, o trem parte em direção à zona oeste. Estação Anhangabau. Túúúú... Estação República. Túúúú... Estação Santa Cecília. Túúúú... Estação Marechal Deodoro. Em cada uma destas estações mais gente desembarca do que o contrário - é o centro da cidade. Túúúú... Estação Palmeiras-Barra Funda, já na zona oeste.

Ainda tenho dois quilômetros à pé. Calor, que inferno, "poderia chover", pensei. Desisti da ideia ao lembrar a distância da volta, ir embora ali da região da Barra Funda até o Butantã (fiquem tranquilos, não farei mais nenhum parêntese sobre distâncias), onde moro, sob chuva. Levaria dez horas! Aaaahhh, o calor é muito forte.

A avenida Marquês de São Vicente está parada e o fórum trabalhista, cheio. Prédio famoso, o do Lalau. Cento e sessenta e cinco milhões de reais embolsados ali, sem escrúpulos, sem preocupações. Ainda não calculei quanto dá isso em arroz e feijão, bife e batatas fritas. Mas sei que ele comprou carrões, apartamentos em Miami, um jatinho, e o velhote está solto. Prisão domiciliar de rico até eu queria. Deve dar para comer o que você quiser - e na hora que bem entender.

Atravesso a avenida Pacaembu. Dez para a uma. Tenho dez minutos, estou derretendo. As pessoas não se comunicam, ninguém conversa mais, todos com suas carrancas ameaçadoras, prontas para o pior. Pensei isso longe do metrô, ao me lembrar das pessoas. Todas absortas em pensamentos, na leitura de amenidades, ouvindo música em seus gadgets de última geração. SMS, MP3, acrônimos de solidão. Me vejo utilizando os mesmos produtos. Livros, aparelhos de MP3, jornais, o sono fingido recostado na janela do ônibus ou do trem. O "M" gigante da cadeia americana de sanduíches do palhaço sem graça está bem na minha frente, dentro de uma outra cadeia de lojas americana, a do titio Walton, uma que pratica dumping (Ao Google, molecada!) para fechar a concorrência.

Ficamos com raiva do idoso na fila do banco, louco para bater um papinho, geralmente seguido da reclamação da fila que não anda, ou que o ar-condicionado da agência está quebrado. Vem o papo dos juros exorbitantes, do ex-sindicalista que ninguém votou mas está lá em Brasília - assim como era o doutor honoris causa de Sorbonne ou com o caça-marajás das alagoas! - ditando nossos destinos. O alto custo das tarifas de transporte. O valor da aposentadoria. O preço do arroz e do feijão. Que fome! Temos que desligar o MP3, fechar o livro, acordar de nosso sono fingido.

Concordo com uma tese do escritor português José Saramago: "a comunicação humana está involuindo, logo voltará aos grunhidos" (Obrigado, Thiagão, pela lembrança!). Quando voltaremos a ser humanos (hã, hã, hã!)? Quando os jovens cederão seus lugares no ônibus ou metrô para o idoso e a mulher grávida? Quando seremos gentis com o próximo, sem que isso pareça piegas, coisa do passado? Por que temos que viver neste mundo lotado, mas absolutamente sozinhos? Quando é que vou almoçar?

Cheguei. Uma e cinco. PQP!!!, esqueci de um documento! Será que vão aceitar metade do necessário? Não, desisti na portaria. Amanhã eu volto com tudo que foi pedido. Foto, cópia do RG, do CPF, título de eleitor. Molho de tomate, uma pitada de sal. Certificado de dispensa militar. Um monte de números. Esquecidos numa gaveta. Igualzinho aquele pacote de biscoito lá em casa.

Amanhã eu volto. Tomara que eu não encontre com a mochila gigante da loirinha. Senão eu mesmo vou chutá-la. Onde tem um sujinho barato aqui na Rudge?

Rodrigo De Giuli

3 comentários:

  1. Pegou metro com a loirinha no outro dia?

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  2. Caandy,
    Não, eu não me reencontrei com a loirinha. Tampouco refiz minha viagem de metrô, ultimamente ultralotado. Fiz a viagem ontem, dia 22 de setembro, Dia Internacional sem Carro, de carro (Pô, é flex, vai, me dá uma chance?). Tinha compromissos e, como a amável prefeitura de São Paulo não aumentou a frota de trens e ônibus da cidade, tive de me contentar em torcer para que os outros paulistanos aderissem ao movimento e deixassem as ruas livres para mim. Bem, se você viu as notícias sobre o trânsito ontem na capital paulista, deve ter visto que ninguém se "lembrou" do tal dia sem carro...
    Paciência... Foi o que sobrou para o paulistano. Eu inclusive!
    Um abraço,
    Rodrigo De Giuli

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  3. Nossa. Demorei pra ver esta resposta. Pena, a loirinha me deixou curiosa. Sou a dona do blog Kiyomaro Takamine, as atualizações não aparecem sempre. E tambem dona deste blog acima, que é quase um deserto. Ninguém vai esquecer dos carros tão facilmente.

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