14 de agosto de 2009

UMUNDUNU - UMA VERDADE INCONVENIENTE


“Inconveniente, sim, sem a menor dúvida.
O comportamento humano tem sido inconveniente com relação ao planeta, sua casa.”
Disse um cego ao seu cão guia, diante da bilheteria do cine Colonial.
A garoa caía fria sobre a paulicéia de agosto. Abrigado pela velha marquise, o pequeno grupo de cinéfilos move-se calmamente. Alguns fumam, outros conversam ou falam ao celular. Distraída com a pipoca, a menina olha os cartazes, enquanto seu par, entusiasmadamente, relata.

- Há oito anos, o Al Gore, como um arauto do apocalipse, segue em peregrinação por centenas de cidades do mundo. O documentário que apresenta algumas de suas palestras revela um expositor maduro. O cenário é tecnicamente perfeito. A trama de “Uma verdade inconveniente”, é uma obra de arte. Um espetáculo de imagens comoventes.

O ex vice-presidente dos Estados Unidos, herdeiro milionário do tabaco, descobre que o cigarro foi a causa do câncer pulmonar de sua irmã. Desde lá, nunca mais foi o mesmo, passou a prestar atenção à saúde da Terra e percebeu que as coisas não estavam tão maravilhosas quanto ele imaginava em seus dourados anos estudantis, quando, perplexo, ouvia as palestras de seu professor de biologia.

Possuído então por um profundo amor ao semelhante, ele sai para pregar aos homens sem consciência ecológica, o novo evangelho ambiental. Os gráficos precisos e os depoimentos embasados no rigor das ciências exatas, aliados à sua figura messiânica e despojada, rendem ao discurso, o eco precioso da preocupação juvenil, as rugas severas de intelectuais e um solene prêmio Nobel da paz. Tudo pelo verdadeiro. Quem sabe, não estaria aí a idéia para conteúdo de uma novela global. “Rumo ao Vinagre”, de Miguel Falabella, talvez? Não! Nada a ver, pouco importam o título e o autor, vale pelo tema... É vale sim. “Totalmente meio ambiente” em mini-série, já pensou...

Ascendem-se as luzes, é quase meia noite. Intrigada, ela questiona.

- Então quer dizer que o Tsunami, o Katrina, o derretimento das calotas polares, o desmatamento desenfreado da terra, tudo isso e muito mais, tem culpados?
- Sim, minha cara, mas os responsáveis, uma vez identificados, serão punidos com o rigor da lei.
- É triste, muito triste isso.
- Sim, é. E como!
- Mas o quê fazer meu amor?
- Sei lá, respeitar cotidianamente tudo o que se move, por exemplo, estou de pau duro

- Nossa!! Tudo o que se move?

E assim, inconformados, Lílian e Anderson, deixam a sala de projeção e partem resolutos para cenas de sexo explícito no parque do Ibirapuera. Uma atitude realmente transformadora do cotidiano, não fossem o seqüestro relâmpago, a garoa na bunda e um processo por atentado ao pudor.

Claudio Zumckeller

2 comentários:

  1. Os mesmos blablablás de sempre. Assim como a pandemia de Gripe A, a renúncia do Sarney ou o Corinthians campeão da Libertadores.
    Claudio, um visionário espetacular! Até eu fiquei de pau duro...
    Rodrigo De Giuli

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