27 de agosto de 2009

MISCELÂNEA - UMA AMIZADE MENDIGA


Baila está muito magra, com sarna e late sempre que alguém se aproxima da carrocinha de madeira, com rodas de fusca, pneus gastos. Pequena e preta, a vira-lata é companheira do carroceiro Francisco de Assis Lopes, aparentando bem mais que os declarados 56 anos, paraibano de Campina Grande, também magro como Baila, cabelos grisalhos, pele marcada pelo sol.

Está nas ruas desde 1979, quando foi demitido da Scania, em São Bernardo do Campo. Chicão, como era conhecido pelos colegas da fábrica, fazia parte do primeiro turno da usinagem, onde eram estampados paralamas de vários modelos de caminhões. Trabalhava na companhia havia oito anos. Politizado, Lopes procurou a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e Região. Lula presidia o sindicato.
"Eles só queriam saber da contribuição sindical. Nunca fui ajudado por eles. Fiquei na mão", acusa Chicão. "Pô, eu era o primeiro a chegar na porta da fábrica nas reuniões do sindicato. Acho que foi por isso que me mandaram embora".

Hoje ele cata papelão, latas, madeira, tudo que der alguns trocados. Baila, também conhecida como Pretinha, o acompanha desde filhote. "Ela estava no lixão onde vou buscar 'bagulho' pra vender. Estava quase morrendo. Dei comida da minha boca para ela", emociona-se.
Chicão também chora pela família perdida. A esposa o deixou três meses depois da demissão. Foi viver com um vizinho que, de acordo com o andarilho, "é um desavergonhado que roubava a pensão do pai". Ele conta que tinha dois filhos, um de 8, outro de cinco. Estudavam em escola pública próxima ao bairro onde moravam, na Vila Paulicéia, na divisa entre Diadema e São Bernardo. Nunca mais os viu.

Entre 1979 e 1990, mendigou nas ruas de São Bernardo, apanhou da polícia, usou drogas, se diz um sobrevivente. "Já vi meninos de seis, sete anos se drogando. Aquilo me deixou doente. Decidi parar com as branquinhas", queixa-se Chicão, com uma ponta de raiva. Pelas branquinhas entenda-se crack, cocaína e pinga. "Às vezes era álcool 'Zulu' misturado com geladinho ou suco vencido dos vendedores de churrasquinho grego", recorda-se o ex-metalúrgico.

Com várias marcas e cicatrizes pelo corpo, Chicão anda com dificuldades. Foi atropelado duas vezes, uma delas na Via Anchieta. Tentou se matar. "Estava tão triste, não tinha chão, pulei na frente de um carro, mas a madame andava tão devagar que só quebrei as pernas e os braços", ironiza o "dono" da vira-latas. O outro acidente foi em Santo André. Ele tentou andar com a carrocinha na Perimetral, uma via expressa que atravessa o centro da cidade. Dois carros estavam emparelhados e não conseguiram diminuir após uma curva. Ficou dez meses no hospital.

Os bairros do Glicério e da Liberdade são suas moradias. Marquizes, viadutos, praças, qualquer local que proteja a ele e a sua inseparável amiga da chuva ou do fri o. Não gosta de albergues. "Lá eu sou só mais um. Na rua, eu e a Pretinha ficamos com Deus. Ele nos guia e nos protege", filosofa. O carroceiro não se lembra de seu antigo endereço, nem da cor da casa. Só se lembra da marca da televisão. "Era uma Zenith pesada, de seletor, demorava cinco minutos para ligar", consegue divertir-se.

A carrocinha está cheia. Tem algumas embalagens de papelão catados no Brás, duas caixas de isopor "para a Baila dormir quentinha". Barras de ferro doadas numa construção no Glicério. Vigas de caibro achadas na Liberdade. Muito jornal e revista, tudo doação de "pessoas boas de coração". Está contente, acha que pode pegar entre 15 e 20 reais. "Dá para comer e ainda sobra para o cigarrinho", comemora.
O único vício que restou para Chicão foi o cigarro. Quer parar, pois "não dá para sustentar, o maço é caro e pedir na rua te olham torto, só faltam te xingar". Baila permanece sentada ao lado do carroceiro o tempo todo . "Eu tinha outro vira-lata, o Manolo, que morreu de velho", ralata orgulhoso o ex-metalúrgico.

Com o olhar perdido, Chicão nunca encara o interlocutor. Está sempre de cabeça baixa, esfregando as mãos ou mexendo nas coisas da carrocinha. Ajeita de lá, acerta dalí, sorri nervoso, envergonhado com suas condições. Francisco de Assis Lopes sonha com a carteira assinada novamente. "Meu último registro foi da Scania", diz. Decepcionado com o governo Lula, o ex-metalúrgico toma a liberdade e, citando Shakespeare sem saber, diz que o sonho "não durou uma noite de verão".

Ele despede-se de mim com um aperto de mãos firme. É a primeira vez que me encara. Agradece minha preocupação. Sorri nervoso mais uma vez, agora brigando com Baila, que late para mim ao se afastar. "Para, pretinha! O moço é gente-fina". Chicão vira a esquina, talvez imaginando sua próxima refeição ou ainda sonhando com o carimbo do FGTS na carteira de trabalho.


Rodrigo De Giuli

2 comentários:

  1. Bela materia. Impecavel e digna de um bom jornalista.
    Gostei muito.

    Marcio.

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  2. Adorei a matéria. Relata o óbvio sem ser óbvia.
    Uma das minhas preferidas.

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