27 de agosto de 2009

DITUDUMPOCO - REPÓRTER LIGA O GRAVADOR E MANDA BALA PELA CIDADE


Estagiário da rádio Paulicéia, Juvenal Juvenil extrapola no fala povo.

-O que você pensa disso? É proibido fumar diz o aviso aqui.
Mostrando o cartaz da lei antifumo, dispara, sem consulta prévia, sobre o cidadão que passa tragando tranquilamente.
O abordado é Paulo Cunha, vendedor ambulante, 45 anos, paulistano do bairro de Tucuruvi, que responde revoltado e diz que só poderia partir de um Serra. “Serra”, para quem não sabe, significa, na gíria, aquele que fuma, mas nunca compra cigarros. O entrevistador não entendeu bem, mas sentiu que os pitadores inveterados estão em pé de guerra.

Questiona então outro fumante e, nesse ínterim, passa um caminhão soltando enormes baforadas de fumaça negra. Ambos suspendem a respiração:
- Olha aí - diz João Borba, 38 anos - é foda! Isso pode né? Os automóveis também fumam, e como fumam. São cerca de 6 milhões baforando dia e noite. E o Dr. Dráuzio Varella não aparece com o “fumaçômetro” para medir o grau de gás carbônico no peito do pedestre que atravessa a cidade.

Quando Juvenal esboça um comentário, ouve os entusiasmados brados que surgem de repente:
- Isso é outra coisa!
Retruca o não fumante, Carlos Barbosa, Funileiro, 28 anos, que passava e percebeu que se tratava da Lei antifumo. Com um olhar vitorioso pela recente lei, que parecia considerar uma conquista pessoal, emendou solenemente e batendo no peito:
- Graças a Deus desconheço o gosto de um cigarro.

Já Celsão, previsto como último entrevistado do dia, 42 anos, ex-fumante, proprietário do bar Açaí e Cia, disse que a lei antifumo ia incrementar seu negócio:
- Ta vendo os vizinhos!
Declarou e, antes de explicar sua tática, apontou a loja de motos e o instituto de estética colados à direita e à esquerda do seu negócio:
- Eles não abrem durante noite, certo?
E seguiu contando que alugou os respectivos espaços nas calçadas e vai instalar mais de trinta mesas ao ar livre, para que ali os fumantes estejam à vontade:
- A fumada livre vai garantir um faturamento maior.
Arrematou orgulhoso.

Quando terminava os trabalhos, já com o gravador desligado e pronto para deixar o local, o repórter é surpreendido outra vez. Surge um tipo cinqüentão, é Jean Carlos Azevedo, velho hippie que sobrevive vendendo artesanato. Um tanto irônico, pediu para falar, e ao notar que o repórter consentia soltou o verbo afirmando estranhar que o governador Serra, ex-exilado, ex-ativista das liberdades democráticas, ex-líder estudantil socialista - o mesmo Serra que um dia posou abraçado com o Caetano Veloso, nos anos 70, e até cantou a canção: “É proibido proibir” - venha agora com essa lei:
- É... O poder deformou o caráter desse cara.
Lamentou, lisérgico, seguindo caminho com sua banca móvel pendurada ao pescoço.

Claudio Zumckeller

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