15 de agosto de 2009

REALPOLITIK - ROTULAGEM DOS TRANSGÊNICOS

Consumimos diariamente vários tipos de alimentos, entre eles, com certeza existe um alimento transgênico. Seus problemas são inúmeros: a ameaça à biodiversidade, ameaça à saúde humana e a dependência dos agricultores. Mas a questão não é essa. É o desrespeito ao consumidor.

Desde abril de 2003, o governo Lula, decretou a lei n° 4.680, que obriga as empresas que produzem e vendem alimentos com mais de 1% de transgenia ser rotulados. O signo que deve conter nas informações do produto é um pequeno triângulo amarelo com a letra “T”, no centro. Apenas no início de 2008 alguns produtos começaram a receber a rotulagem. Os primeiros foram os óleos de soja Soya e Primor, ambos fabricados pela Bunge, e Liza e Veleiros, fabricados pela Cargill. Mas ainda é raro encontrar algum produto com o rótulo.

Passeando por um supermercado, não causa estafa encontrar a grande maioria dos alimentos que podem conter transgênicos, segundo a “lista vermelha” do Greenpeace, sem nenhum rótulo de identificação.

Por causa desse desrespeito ao consumidor, visitei três grandes supermercados: Carrefour, Extra e Pão de Açúcar; para tentar saber por que não existe uma rotulagem maior. Honestidade com o seu consumidor.

“Eu uso a Cuca” - Carrefour Casa Verde

Um slogan bonitinho e um verdadeiro shopping de produtos alimentícios, essa é a minha primeira impressão. Após percorrer as inúmeras gôndolas, de todos os alimentos escritos praticamente em seis páginas da “lista vermelha”, como o famoso Ovomaltine, Corn Flakes e o Capeletti da Frescarini, os únicos encontrados com o assustador triângulo foram mesmo os óleos citados acima.

Fui atrás de um atendente, e foi aí que começou a verdadeira batalha da paciência.O primeiro atendente era um jovem rapaz que não sabia nada do assunto – tudo bem, não é a sua função - e pediu para que eu me dirigisse até a Central de Vendas. Atrás da bancada da central, três mulheres extremamente mal-humoradas me atenderam, fui recebido com um sonoro “que que você quer?”. Após explicar toda a história da rotulagem dos alimentos e porque eles não eram rotulados, uma das três mulheres me pediu para esperar e virou de costas para fazer uma ligação. Bateu o telefone e apenas disse: “Vá até o Atendimento ao Cliente Carrefour”.

A próxima bancada estava vazia, não havia ninguém, fiquei esperando por 10 minutos, até passar outro atendente que me disse que ali era apenas para o cliente que estava com problemas no cartão Carrefour, não era meu caso, e falou: “Vá até ao balcão de atendimento ao lado”. Não havia nenhuma sinalização para possuidores do cartão Carrefour.

Uma secretária me atendeu, demonstrando certo nervosismo, e após responder um inquérito sobre o que eu desejava, disse que esse tipo de problema era apenas com o gerente do setor de alimentação, e ligou para ele. Passaram-se exatos 30 minutos para chegar o gerente.Esboçando um pouco de cansaço e muito nervosismo, perguntou-me qual era o problema, e após recitar pela quarta vez a mesma ladainha, falou que este assunto não era dele, e sim da Técnica de Higienização da Vigilância Sanitária do supermercado. Ao menos foi o que entendi, ele não falou, saiu de sua boca como um repente.

Mais 15 minutos encostado ao balcão, chega uma simpática senhora, contrastando com os demais, vestindo um jaleco branco, e me chama para um passeio por entre as gôndolas. Pegou a lista de minha mão, e fomos conferir alguns produtos. Disse enquanto segurava uma caixa de cereal Kellog´s, que realmente era interessada no assunto, e que também concordava que os produtos deveriam ser rotulados, mas que desconhecia a tal lista. Falou também, que a culpa seria das empresas, não do supermercado. Quando já estava de saída, ainda me disse: “quando aparecer algo similar na mídia provando essa lista, com certeza o Carrefour irá se predispor a rotular”. Imagine se a mídia não existisse. Quantas informações nos seriam ocultadas?

“Mais barato, mais barato, Extra” - Mooca

Outro shopping alimentício. Tudo pode ser encontrado: televisores, roupas, comidas, perfumes e transgênicos. Mas, diferente do Carrefour, tudo é colorido e chamativo, é um supermercado popular.

Os produtos da “lista vermelha” foram encontrados, e novamente, apenas os óleos encontravam-se rotulados e com os dizeres: “produto produzido a partir de soja transgênica”.
Fui até o balcão de atendimento ao cliente, estava lotado, fiquei por volta de 20 minutos para conseguir ser atendido. Depois de explicar a lei de rotulagem, o homem que me atendeu pegou seu “walk-talk” e pediu a presença do gerente.Este quando chegou, após 10 minutos, apresentou-se com certa defesa já esperando uma pergunta complicada de responder.

A conversa foi curta, e devido à rapidez que queria se livrar das respostas disse: “nosso interesse é vender os produtos. Recebemos e vendemos. Vá procurar as empresas responsáveis por isso”.Tive a impressão que isso seria como um jogo de “ping-pong”. As empresas, como Bunge, Cargill e Syngenta, provavelmente diriam: “vá procurar os supermercados, eles têm que alertar o seu consumidor”. E com esse tom autoritário.

"Lugar de gente feliz” - Pão de Açúcar

Agora sim, somente produtos alimentícios. Nada de televisores e roupas. Fazendo jus ao singelo slogan, todos os funcionários realmente pareciam estar felizes, eram simpáticos e comunicativos. Fiquei lá para ver até onde essa suposta calmaria podia chegar.

Enquanto fiquei por mais de 30 minutos rodando no supermercado, três funcionários vieram perguntar se eu precisava de ajuda, a desconfiança deles aumentava, afinal, já estava lá a um bom tempo e não havia comprado nada. Como nos outros supermercados, a história não foi diferente. Rotulados, apenas os óleos.

A cena que se seguiu foi como nos antigos filmes de “Western”, o bandido andando na direção da mocinha, a cidade – supermercado – vazia, só faltava o feno rolando. Enquanto eu avançava até o balcão de atendimento, uma funcionária me fitava receosa com seus olhos esperando por qualquer coisa.

Passado o momento, comecei novamente a fazer minhas perguntas. E já conhecendo o procedimento, disse ao final: “Pode chamar o gerente”. Não foi diferente. Ela saiu para ir atrás do responsável.Foram 20 minutos, o gerente chegou e a partir de nossa conversa deu para saber que “da missa, ele não sabia nem a metade”. Não sabia nem que existia uma lei obrigando a rotular os produtos transgênicos. Enquanto caminhávamos pelas gôndolas, eu mostrava os produtos modificados geneticamente, como a Danone, Dannete e All Day da Bunge; e ele apenas confirmava. Por fim, não disse nada de diferente. “Eu não sei te responder isso. Talvez você tenha que procurar as empresas que fazem os produtos”.

Com a visita aos supermercados, e conversando com os responsáveis pela área alimentícia de cada um deles, uma coisa ficou provada. A rotulagem dos transgênicos ainda é desconhecida. Pior, os transgênicos são desconhecidos pelo público geral. Por causa disso, estamos consumindo sem saber, diariamente, produtos que podem ou não, fazer mal a nossa saúde. O decreto está aí para ser cumprido; ou iremos novamente deixar os grandes monopolizadores de dinheiro passar por cima de nossas leis? Não façamos igual ao que uma atendente disse: “Eu não sei nada disso. É burocracia”.

Felipe Payão

5 comentários:

  1. Opa! Virei seguidora. Vale dar uma olhadinha no meu também. Pode não agradar todo mundo mas é diferente. Beijos!

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  2. A desculpa do "vai procurar a empresa responsável" e "aqui só vendemos" não cola, pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, os super-mercados são responsabilizados solidáriamente com a empresa que fabricou o produto. Quanto a lei que existe e não é aplicada, veja o exemplo do Decreto sobre Serviço de Atendimento ao Consumidor (não me recordo o número do decreto). As empresas até hoje não o respeitam.. e quem perde com isso são os consumidores.

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  3. Legal o blog de vocês, e gostei dessa matéria dos transgênicos. Vou ler as outras.
    Beijos.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Puta que pariu! Até o Capeletti da Frescarini? Dio mio, até o Capeletti da Frescarini? Tem certeza que o Capeletti da Frescarini também está envolvido nisso? Mas o Capeletti da Frescarini? Vou correndo ao oncologista! Maldito Capeletti da Frescarini!!!
    Rodrigo De Giuli

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